Yes, we need Education !
O Rock instruiu a nossa geração. No início dos anos 1980, os jovens se reuniam em casas de amigos para ouvir vinis, na maioria, “estrangeiros”. Foi um amigo, que hoje é Padre, quem iniciou a mim e a um pequeno grupo de amigos no Rock, para além dos Beatles. Ele morava em Belo Horizonte, era primo de um amigo de infância e trazia regularmente as “novidades” da capital. Foi assim que conhecemos grandes álbuns clássicos:
The Dark Side of the Moon e The Wall (Pink Floyd), Abbey Road (Beatles), Led Zeppelin I, II, III e IV, Paranoid (Black Sabbath), Foxtrot (Genesis), A Farewell to Kings (Rush), A Night at the Opera (Queen), Crime of the Century (Supertramp), Unmasked (Kiss), Machine Head (Deep Purple), Fragile (Yes), Aqualung (Jethro Tull), Pictures at an Exhibition (ELP), Are You Experienced (The Jimmy Hendrix Experience), Ashes are Burning (Renaissance), Tommy (The Who), Lovedrive (Scorpions), Back in Black (AC/DC), Iron Maiden (Iron Maiden), dentre outros. Além de alguns discos de artistas brasileiros: Secos e Molhados, 14 Bis e Raul Seixas (O Rock Nacional ainda demoraria alguns anos para “revelar” as bandas que fariam sucesso nos anos 1980). Alguns álbuns também chegavam nas nossas mãos por intermédio do tio de um amigo que trabalhava em uma importante emissora de rádio local. Algum tempo depois, eu mesmo comecei a trabalhar em rádio e tv {1986 a 1988} e também passei a ter acesso a material pouco disponível na época. E também tínhamos amigos que trabalhavam em lojas de discos locais {Capital Discos, Discolândia,..}
Havia algo de mágico naquelas reuniões e naqueles discos. As músicas, as imagens daqueles caras com suas roupas extravagantes, as capas dos álbuns, cada uma mais emblemática do que a outra, promoviam um sentimento difícil de explicar. A gente não entendia quase nada que estava ouvindo, mas todos nós sabíamos que não era “qualquer” coisa e a nossa ingenuidade, para o bem ou para o mal, não nos permitia compreender toda a engrenagem [a Indústria Cultural] que movia o “negócio” da música. Como escreveram Adorno e Horkheimer: “O logro, pois, não está em que a indústria cultural proponha diversões, mas no fato de que ela estraga o prazer com o envolvimento de seu ritmo comercial nos clichês ideológicos da cultura em vias de se liquidar a si mesma”. Mas como nós, na nossa ignorância juvenil, não sabíamos disso, apenas nos divertíamos e, enquanto isso, também [inconscientemente] nos instruíamos.
Havia um “ritual” para a audição. Os discos deviam ser tratados com carinho. O aparelho de som era um Gradiente 3X1 (Toca discos, tape e tuner), quando ouvíamos na casa dos referidos amigos, ou um Conjunto 3X1 Polyvox Mod 900 (que eu conservo ainda hoje, em uso) quando ouvíamos em nossa casa. Salvo engano, foi o primeiro aparelho de som de uso doméstico com o display de leds. Ainda guardo viva a imagem daquelas “luzinhas” brilhando à noite, no ritmo da música. Normalmente, a gente deixava cada disco “rolar” inteiramente no toca discos, mas, às vezes, escolhíamos uma faixa exclusiva. Era preciso ter as “manhas” para posicionar a agulha no ponto preciso do início da música, uma habilidade que conferia grande status. Aqueles aparelhos também permitiam que as músicas preferidas fossem gravadas em fitas K7. Eram as famosas coletâneas. Todas as lojas de discos tinham o seu “setor” de reprodução, no qual as fitas eram gravadas e reparadas, conforme o caso.
Apesar de os nossos pais considerarem que ouvir Rock era uma perda de tempo, no que eles tinham certa razão, aqueles momentos eram também educativos. Havia muito conhecimento escondido em todo aquele “barulho” e isto só podia ser produzido por pessoas com uma base escolar e cultural muito sólida. Muitos desses artistas depois passaram a se dedicar a projetos mais refinados (vejam link para uma interpretação de Bachianas Brasileiras Nº 5 feita por Steve Howe, do Yes, ao final do texto). O fato de a maioria das músicas terem sido compostas na língua inglesa nos forçava a aprender algo desse idioma.
É inegável que os astros do Rock clássico cometeram muitos excessos, mas não foram hipócritas e as suas canções, em geral, exaltavam o amor, a paz e a liberdade, valores que ficaram, de alguma forma, impregnados em nós. No meu caso, que sempre me interessei pelo contexto em que as músicas eram criadas, posso dizer que grande parte dos assuntos que passariam a me interessar posteriormente (filosofia, geografia, espiritualidade, astronomia, geofilosofia, cultura, política, educação...) me foram apresentados por esses artistas.
Os Beatles ainda são os meus preferidos, devido à maneira pioneira como foram abrindo um caminho e crescendo musicalmente. Eles desenvolveram as primeiras composições que deram origem aos estilos de Rock que foram surgindo. Nenhuma banda fez algo significativo, que eles ainda não tivessem feito. Apesar disso, de todas essas bandas, nenhuma me causava mais indagações do que o Pink Floyd, desde a figura enigmática e psicodélica do seu idealizador, Syd Barrett, até as composições psicológicas e subjetivistas de Roger Waters. Não foi à toa que o primeiro livro que escrevi teve como tema o álbum The Dark Side of the Moon.
No entanto, a composição mais contundente de Waters está em outra obra. Another Brick in the Wall, do álbum The Wall. Confesso que quando a ouvi (não digo escutar, mas ouvir) em 1981, com 15 anos, eu não compreendia porque a música “dizia” que não precisávamos de Educação. Hoje entendo e é por isto que escrevo estas linhas. Aquela música não era para nós, jovens brasileiros! Ela “diz”:
Não precisamos de nenhuma educação
Não precisamos de controle mental
Chega de humor negro na sala de aula
Professores, deixem as crianças em paz
Ei! Professores! Deixem essas crianças em paz!
Aqui cabe uma análise crítica, pois essa música foi feita para os jovens ingleses, que estavam saturados de Educação por todos os lados. No Brasil, não eram os professores que “incomodavam” os alunos. Em geral, salvo raras exceções, eram os alunos e os gestores que incomodavam aos professores. Cito a minha época de escola primária e secundária (final dos anos 1970 – início dos anos 1980) e a minha experiência pessoal, em uma Escola Pública Estadual que tinha tantos alunos que oferecia quatro turnos diários, com o mesmo quadro de professores. Os nossos professores eram dedicados, mas sofriam por não se sentirem tão valorizados quanto mereciam e por trabalharem muito mais do que deveriam. Por outro lado, o professor na Inglaterra, sobretudo na época da infância de Waters, era, em geral, uma autoridade despótica e indiferente. [Com rara exceção para as escolas de artes, nas quais muitos desses jovens músicos estudaram].
Não é por acaso que houve tanta rebeldia transformada em arte na Inglaterra, desde aquele período. Para quem quiser entender as razões que levaram Roger Waters a compor todo o álbum The Wall, além dos seus próprios traumas de infância, como o fato de ter, com poucos meses de vida, perdido o pai, morto na 2ª grande guerra mundial [o seu avô morreu na 1ª grande guerra], eu recomendo o filme IF (1968).
Então, a música Another Brick in the Wall me deixava perplexo. Pode ser que eles (os ingleses) não precisassem mais daquela Educação, mas nós (brasileiros) precisávamos e continuamos precisando. Não de uma Educação qualquer, mas uma Educação que promova a autonomia, tão ausente nos nossos estudantes. É óbvio que admito o teor crítico e atemporal dessa música, mas aqui ainda não chegou a sua hora. Por isso, o que quero dizer é que quando um dos nossos adolescentes se põe a cantar o refrão “We don’t needed no education”, simplesmente por cantar, sem nenhuma reflexão, ele está equivocado. Nossos jovens precisam de Boa Educação, nem que seja para um dia poderem também dizer: “Nós não precisamos (mais) de (uma) Educação qualquer”, mas aí já será em um contexto de superação.
Paulo Irineu Barreto
Enviado por Paulo Irineu Barreto em 08/06/2026