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Quem é ela?
Aconteceu em uma tarde de domingo de 1983, em um pequeno povoado próximo à fazenda de tios meus, no município de Arraias. Na época, Goiás; hoje, Tocantins.

Domingo era o dia em que algum fazendeiro sacrificava um ou dois bois para vender a carne, no salão em frente ao campo de futebol.
Ao final da tarde, depois que estavam apenas os ossos dos bois pendurados nas estacas e quase toda a carne já havia sido vendida, as pessoas que não tinham condições de adquirir o seu bocado chegavam para reivindicar alguma sobra; e sempre conseguiam, pois a generosidade local não permitia que alguém voltasse para casa com as mãos vazias. Era uma regra, que não sei se ainda vigora.
Estávamos em um grupo de cinco ou seis jovens. Não estávamos lá para comprar carne, mas para “espiar”, usando um termo daquela região, na qual dei os meus primeiros passos, do que muito me orgulho.
Saímos dali e fomos terminar a tarde em uma das vendas. A larga rua, de chão branco batido e rico em calcário, convidava para uma curta peregrinação, antes de voltarmos para a sede da fazenda dos meus tios, onde eu passei a maioria das minhas férias escolares.
Na venda, encontramos mais gente que queria prolongar um pouco o dia por ali. O lugar era democrático. Nele estavam desde crianças de cinco ou seis anos, acompanhadas dos pais, até sexagenários. A conversa era profícua, mas não seguia qualquer determinação ou lógica. Era livre. Alguém reclamava do preço da carne, enquanto outra pessoa falava que bom mesmo era antigamente, quando todos tinham um pedacinho de terra e algumas crias para abater. Pouco depois, alguém alertava para a possibilidade de chuva naquele fim de tarde, recebendo apoio de outros e sendo também confrontado por quem discordava, dizendo que as nuvens pesadas estavam se agrupando na direção norte e a chuva sempre vinha do sul. Uma criança, que havia pedido doces para a mãe, começa a chorar, depois de receber um “não”, como resposta.
Em certo momento, aproxima-se uma jovem montada em um belo cavalo alazão. O conjunto - cavalo e jovem - para na frente da venda. Ela desce, prende o cavalo à cerca, pelo cabresto, e entra no recinto, tornando-se, imediatamente, o centro das atenções.
Trajada a rigor, no que hoje chamaríamos de estilo cowgirl (não me recordo se era uma expressão já usada na época). De baixo para cima, ela trajava: um legítimo par de botas de couro de canos longos, que chegavam quase à altura dos joelhos, às quais estavam presas delicadas esporas na cor prata (talvez, “quarto de milha” inox); calça jeans, com um tom de azul - moderadamente - forte, com alguns detalhes bordados nos bolsos e nas laterais, na cor marrom; cinto largo, com uma grande fivela de cor prata, combinando com as esporas; camisa xadrez presa dentro da calça; um colete de couro, da mesma cor que o par de botas e um belíssimo chapéu country (rodeio), vermelho escuro, quase vinho. Longos e loiros fios de cabelos, que o chapéu não conseguia esconder, caiam por sobre as costas, até a altura da cintura. A fisionomia revelava um biótipo não muito comum para a região, na época.
A surpresa de todos no recinto demonstrou que a jovem era desconhecida.
Ela se aproximou do balcão, caminhando elegantemente. Corpo reto, nariz empinado, quase arrogante. Perguntou ao atendente, que também era o proprietário da venda:
_ Você tem fósforo?
_ Sim. - ele respondeu.
_ Me dê uma caixa!
O senhor pegou a mercadoria na prateleira e colocou sobre o balcão. A jovem pegou a caixa de fósforos e perguntou novamente:
_ Quanto custa?
_ 100 cruzeiros.
Ela retirou do bolso duas moedas de 50 cruzeiros e entregou ao dono da venda.
Antes de sair, olhou ao redor, com ar de superioridade, e, de maneira desrespeitosa, perguntou:
_ Como eu pude vir parar neste lugar?
Voltou as costas para todos, saiu da venda, soltou o cavalo, montou sobre ele, cravou-lhe as esporas e saiu em disparada, na mesma direção pela qual chegou.
Assim que a jovem saiu, começaram as suposições sobre quem ela poderia ser.
O primeiro a falar foi o dono da venda:
_ Eu nunca tinha visto essa pessoa. Alguém sabe quem é?
Todos os que responderam, disseram que não a conheciam.
_ Deve ser filha de um dos políticos que estão comprando terras no município.
_ Deve ser uma herdeira que veio só para conhecer a herança.
E a conversa seguiu.
Enquanto alguns elogiavam a beleza da jovem, outros criticavam os seus maus modos.
Depois de alguns minutos, quando nos preparávamos para deixar o lugar, um menino, de aproximadamente doze anos de idade, descalço e trajando camiseta e calção surrados, deu a sua opinião sobre a garota:
_ P’rá mim, é só uma moça bonita feia.
Depois de passados quase quarenta anos, ainda não ouvi uma definição melhor.
Paulo Irineu Barreto
Enviado por Paulo Irineu Barreto em 21/06/2026
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